segunda-feira, 1 de junho de 2015

A um diamante

Sinto sua respiração em meu ouvido, o calor inunda meu pescoço e não consigo exatamente definir o sentimento por traz do ritmo enérgico de seu sopro. Quanto tempo se passou desde que te vi? Quando tempo se passou desde que estive aí dentro? Vasculhando esses mesmos pensamentos na universo da imaginação solitária. Indetectável o sentimento, mas não importa tanto, gosto da sensação do seu corpo, de seu pulso, de sua masculinidade feminina ao me tocar e a sussurrar vulgaridades nesses sopros quentes e intensos.

Eu permaneci calada em meu mundo e o pranto estava ali, mudo, intacto e volúvel como é de sua natureza. Eu tola sem nunca querer lembrar que sua presença era tão real como as marcas de minha mão. Tempo escuro, sem luz alguma a guiar as divagações que quebravam em minha superfície como as ondas da tormenta do mar de Atlântida que destruíam pouco a pouco a memória lendária de uma terra imaginária cheia de grandes sonhos e possibilidades. Terra esta que nunca esteve em nenhum outro lugar além do imaginário social que permeava a sua presença física e na verdade passava bem longe das lendas com  seus grandes feitios.

A tropa de choque de meus bloqueios feriram esse senso comum de grandiosidade que me envolviam e me levaram para um poço sem água, sem nada e granito no chão.  Só que eu não percebi que havia uma corda porque parei de sentir o calor do sol e o céu já não mais importava, olhei pra baixo e vi o inferno com cores que já não vira desde minha queda ao poço. E sem pensar duas vezes segui o dito popular e abracei o capeta com gosto e vontade de entrar naquele fogo maravilhoso que trazia consigo a dor e o prazer na mesma medida. Quem sou eu para me negar prazer? Demasiada humana, errante e ilusória para negar qualquer coisa maior e mais bela. Então descobri que a dor é bonita, que o pecado é cristão e pouco destrutivo em relação a incapacidade de agir e que o prazer é o que me faz humana, caso contrário eu não seria matéria.

Aí eu te vi, diamante esculpido no sangue e vi que entravas no mesmo trem que me levou ao poço, como eu poderia deixar isso acontecer? Ver outro pedaço de infinito se despedaçar sem enxergar que toda aquela dor era a ilusão de alma ferida açoitando as capacidades mais elementares de sua existência. E ao perceber os danos que a falta de amor fizeram a ele, diamante cuspido de um ventre, maltratado e perdido reconheci o meu lugar inútil diante dessa ousada tentativa. Um coração duro, sem expectativas, sonhos infantis e imagens lunares não poderia jamais ocupar o lugar de amada ainda mais na forma disforme que se encontrava sua superfície em relação ao que esta poderia adquirir. Mas eu não desistiria de você tão fácil.

Adentrei os espaços de sua mente, tudo me parecia bastante familiar e até levemente saudoso, os problemas familiares, o coração partido a incapacidade de levantar da cama, o desespero diante do desconhecido que atordoa a sua mente é te faz fugir desgovernadamente, a utopia. E coloquei você num comodo de meu peito como uma ave ferida e minha missão a partir desse momento era te ajudar a curar sua asa quebrada e te fazer voar novamente. O inesperado deja vu acontece novamente quando percebo que o inferno já te fez rei e que a dor e o prazer pra você tem a mesma importância   que para mim. Ao perceber assumi meu posto bem guardado de demônio e devorei tudo o que podia de sua preciosa presença. E a junção dos sentires foi tanta que me nos elevamos.

Eu queria ter falado com você nessa noite porque você ainda não sabe, não sabe que eu ainda estava na escada e você me fez subir enquanto eu te puxava pra cima.Não sabe que eu chorei ao tocar novamente os sonhos perdidos e que minha vontade de escrever voltou, por sua causa. Eu posso ter o peito quebrado e um coração de pedra que não vai te considerar um amor, mas o seu amor que ainda vibra pelo mundo me levou para a superfície. Eu só tenho a agradecer a tamanha gentileza, de levar um demônio ao céu e oferecer a ele a escolha de estadia mas escolho o inferno porque no céu eu caio e no inferno eu tenho amigos.

Continuarei permanecendo viva enquanto você quiser, te levarei no inferno dos prazeres quando for de sua vontade, estarei do outro lado da linha quando seu coração for partido e serei guia no que precisar de condução. Minha gratidão é eterna e minha lealdade também. Você tem uma amiga e não espero nada em troca nem limite de tempo. A natureza é fluida e segue seu fluxo quando é necessário então se um dia for embora sem me avisar ainda restará a gratidão e quando tardar a partida a saudade. Mas se quiser fincar raízes, aqui tem terra profunda e profana pra vida inteira.

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